Esse monstrengo moderno
Já não sou muito de paciência. Talvez por isto não seja de pescaria. Esperar não é o meu forte. Quero que as coisas se resolvam. E logo. Vem daí a relação pouco amistosa que mantenho com meu computador, esta invenção do diabo que introduziram sorrateiramente na vida da gente, aposentando as máquinas de escrever, tão simples, tão passiva, tão sob nosso controle, mental e manual. Raramente nos irritavam. Uma tecla que emperrava, um parafuso que afrouxava, a fita que se desgastava na hora mais impróprio exigia toda uma epopéia para a troca, borrando nossos dedos de tinta. Mas fora isto, nenhum grande problema que não pudesse ser resolvido por nós mesmos. Agora é diferente. O MONSTRENGO tem vida própria. Tem hora (sempre a mais inconveniente) que ele resolve não cooperar: trava, o mouse não anda, os comandos não obedecem. O computador entre em greve. E sem avisar. No meio do texto. Desesperado, você o manda começar tudo de novo e percebe que esqueceu de salvar o que estava digitando. O canalha apaga tudo. Isto é o de menos. Lá pelas tantas, sem qualquer explicação, ele joga na sua cara uma mensagem arrasadora: foi cometido um erro de execução. E apaga a tela! Mas que erro meu Deus!? Eu estava ali, comportado como um coroinha, digitando o texto, batendo nas teclas com a suavidade com que se trata uma mulher, seguindo as instruções dos 300 manuais que vieram junto com o equipamento no momento da compra, que erro poderia ter cometido? Não adiante. É implacável: estampa a advertência e logo apaga a tela, com a maior cara-de-pau! A única solução é começar tudo de novo. Como é que a gente pode manter relações afetivas com um troço destes? Como não se irritar? E olha que eu trato o desgraçado com carinho que só se dispensa a um filho: não deixo a poeira acumular, limpo o teclado, revejo a infinidade de plugues, tomadas, soquetes e pinos que enfeitam seu rabo, tudo com delicadeza de uma pétala para não irritá-lo, não ofendê-lo, não provocar seus neurônios eletrônicos!.. E não adianta. Volta e meia ele me chateia. Estou digitando um poema e ele interfere: você está digitando uma carta. Posso ajudar? Ora, ajudar em quê? Fornecendo inspirações? Tudo isso porque, no poema, a linha não se completa, passa para a seguinte. Afinal, o quê que computador entende de poesia? Nem a gente entende! De outras vezes, cisma de sublinhar uma palavra que eu tenho certeza, conferida em dicionário qualificado, que está absolutamente certa. Aí você vai saber onde está o erro e o mentecapto retruca: sem sugestão na ortografia. Ora, se não sabe, por que diz que tem erro? É ou não é para se perder a paciência? Isto quando não cisma de acentuar palavras por conta própria, palavras que efetivamente não são acentuadas. Pensa que sabe mais que Rui Barbosa, que o Aurélio, que o Houaiss... É um parto. Toda vez que me sento na frente do computador, penso que estou indo para uma batalha: a do homem contra a máquina, dita inteligente. E, no entanto, como trabalhar sem ser escravo desta geringonça. Acho que vocês desculpam a irritação. Afinal, quem é que já não foi a um banco e, ao acionar o maquinário infernal, não se irritou com a mensagem: terminal temporariamente sem comunicação. Ou seja, naquele momento, o mundo parou...

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