Acidente de trabalho


Carta do pedreiro José de Oliveira pedindo indenização da empresa por acidente de trabalho:



"Trabalho na empresa há mais de dois anos e no dia do acidente estava fechando a alvenaria externa do 6º andar. Recebera a ordem de deixar o local limpo, sem nenhum tijolo, assim que finalizasse o serviço. Terminei às 16:30. Faltava só meia hora para acabar o expediente e sobraram uns 150 tijolos no local, que eu devia levar para baixo. Era muito tijolo, eu no 6º andar, sozinho. Ia levar um tempão para descer toda a tijolada. Resolvi apelar para a inteligência.



Peguei então um tambor de 200 litros, coloquei todos os tijolos dentro dele, amarrei uma corda bem firme em volta do tambor, levei a outra ponta da corda para a carretilha que fica pendurada na lage do 12º andar. Passei a corda na carretilha e desci para o pilotis para então descer o material. Dei um puxão bem forte na corda e o tambor que estava na beiradinha bambeou e começou a descer.




Acontece que eu peso 65 quilos e o tambor cheio de tijolos pesou uns 200 quilos. O tambor começou a descer e eu a subir. Encontrei com ele ao nível do 3º andar: foi uma bruta pancada que me fraturou o joelho e me quebrou alguns dentes. Eu não podia largar a corda sob pena de cair daquela altura. Continuei subindo, com muita dor, até que meus dedos foram engolidos pela carretilha. Imagine a dor. Ao mesmo tempo escutei um barulhão: o tambor chegara no chão, perdeu o fundo e a carga de tijolos. Resultado: fiquei mais pesado que o tambor vazio.




Como o senhor já deve ter imaginado, eu,agora mais pesado que o tambor, comecei a descer e o tambor a subir. Nos encontramos a meio caminho, em alta velocidade, ali pelo 3º andar. Mas desta vez, como o tambor estava vazio ele só bateu com menos força no meu tornozelo, que quebrou mesmo assim, e ainda rasgou a minha coxa esquerda.




Caí no chão, justo em cima da pilha de tijolos o que me rendeu mais quatro costelas quebradas e a fratura do fêmur direito. Neste momento, sem maldade, larguei a corda e eis que o tambor desceu lá de cima, numa velocidade espantosa, e caiu bem em cima de mim. A pancada me valeu mais algumas escoriações e fratura da mandíbula, além de ter perdido mais alguns dentes. Eu já estava quase desacordado quando o nó da ponta da corda bateu no meu olho esquerdo, com toda a força, e lá se foi um olho.




Hoje, graças a Deus, estou me recuperando. Ainda não consigo me mexer e para conversar está difícil por causa da fratura da mandíbula. Ainda sinto um zumbido no ouvido e já estão providenciando a prótese de vidro para o meu olho esquerdo.




Espero que a empresa esteja também providenciando, com rapidez, minha indenização pelo acidente de trabalho. Para escrever esta carta tive que pedir ajuda da enfermeira aqui do Hospital - meus dedos estão todos enfaixados - onde já estou faz bem uns quatro meses".

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