Cara amarrada
O sujeito estava com a cara amarrada, lábios apertando um ao outro, num gesto claro de aborrecimento. O colega ao lado perguntou se estava tudo bem. O emburrado, ou aparentemente emburrado, disse que sim, que estava.
Desceram os dois para um café. O cafezinho, sabe-se, é um tipo de psicoterapia fácil e barato. Custa o preço do café.
Conversa vai, conversa vem, o emburrado, ou aparentemente emburrado, disse que de fato não tinha nenhum problema que o pudesse deixar acabrunhado. Foi aí que o amigo ao lado alertou sobre nossos aborrecimentos sem consciência. Pode, isso? Claro que pode.
Nossa cabeça consciente pode, de fato, não ter nenhum problema com que se preocupar, mas a mente inconsciente pode ter. Mas como é inconsciente, o sujeito não tem como saber. Pode intuir, calcular vagamente, mas o problema continua lá, no porão da mente.
Isso é muito comum, chama-se, mais das vezes, ansiedade. Ansiedade, você sabe, é medo, medo de algo não conhecido, medo vago, de algo futuro. Essa ansiedade provoca graves danos à saúde, pode mesmo, em certos casos, apressar AVCs e correlatos.
Na vida, há dois tipos básicos de problemas: os que podemos resolver e os que não podemos. Saber a diferença entre ambos me parece elementar, imagino… Diante de um problema que pode ser resolvido, resolvê-lo. Quando? O mais cedo possível. Deixar para amanhã, para depois de amanhã, só agrava o problema e eleva a angústia, a preocupação.
E diante de um problema que não nos cabe resolver, fazer o quê? Não está nesse caso a doença. A doença pode ser curada, sim, por nossas vontades. O difícil é conjugar a vontade consciente com a inconsciente. Que queremos sarar, queremos.
Todavia, inconscientemente, às vezes, a doença nos serve de fuga, de escape de algo que não nos dá prazer, pode, também, ser autopunitiva ou vingança contra alguém… A doença, às vezes, é um “mistério”.
Quando nosso problema está no porão da mente, no subconsciente ou mesmo no inconsciente, tem bases objetivas: esse problema no consciente nos incomodaria muito, nos faria ter que assumir uma posição incômoda. O inconsciente só é bom para as artes. Do inconsciente costumam vir os nosso piores fantasmas.
O amigo emburrado tomou o café, sorriu sem graça e voltou ao trabalho, emburrado.
Ele continua sem ter um problema, mas continua com um problema, os lábios emburrados o denunciam…

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