UM ANJO NO MORRO



Nunca tive dúvidas, há seres humanos que vêm à vida terrestre para nos passar uma mensagem da existência dos anjos. Esta semana fiquei sabendo de uma história comovente, dramática e angelical, própria dos anjos.


A história foi contada por um bombeiro do Rio de Janeiro, e os bombeiros não mentem. Aliás, os bombeiros também têm muito de seres especiais, não raramente disfarçados de humanos, são anjos.


Antes de contar da história, devo dizer — apenas lembrar, é claro, que o nosso bem mais apreciado é a vida, não temos outro bem senão a vida, é tudo o que temos.


O sacrifício da vida não nos passa pela cabeça, e quando pessoas sacrificam a própria vida por causas políticas ou, pior do que tudo, religiosas, estamos diante de seres doentes, insanos.


Mas sacrificar a vida por outra vida, ah, isso é para poucos, para pessoas especiais, iluminadas. É a história contada pelo bombeiro carioca. Estava nos jornais.


A história conta que as equipes de salvamento de pessoas nos desabados morros do Rio de Janeiro chegavam à suprema exaustão, mas não cediam ao cansaço.


A certa altura, ouviram gemidos, o som do desespero humano. Os bombeiros localizaram uma jovem adolescente, soterrada junto com a avó. Vivas. Iniciado o trabalho de salvamento, os bombeiros ouviram o grito enérgico, determinado, da jovem: — Salvem primeiro a minha avó, primeiro ela, primeiro ela, a senhora primeiro, vó… A menina gritava determinada, primeiro a avó, primeiro a vida da avó.


O salvamento durou horas, a avó foi salva. Quando os bombeiros chegaram à garota, ela estava morta. Santíssima Trindade, o que é isso? Que menina era essa?


Quem estuda a psicologia sob intenso sofrimento e estresse sabe que o ser humano vira quase um bicho, passa a viver pelo instinto, e o instinto tem na vida seu alicerce maior. A vida é tudo, salvar a vida é o norte existencial de quem está em grave sofrimento.


Quem era essa menina? Quem rosto tinha? Não sei, nunca vamos saber. Mas o que importa que rosto têm os anjos, quem são eles? Isso é irrelevante, o relevante é a grandeza da alma, o desprendimento da vida em favor de uma outra vida.


Menina, não te conheço, nunca vou te ver viva, mas tenho a mais absoluta certeza de que vieste à vida para dar vida, vida à mãe da tua mãe. Que linda.
 

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