O "esperar"

Não há como negar que estamos sempre esperando algo de alguém... Que alguém sempre espera algo de nós. E que este “algo” varia de cotidianos afazeres às tempestades emocionais. Às vezes, esta espera, não, este “esperar” nos aprisiona e, neste momento, nos tornamos sobreviventes e não viventes. Confesso que sou cético em relação a este esperar. Temo, assumidamente, o que esperam de mim. Gostaria de, de vez em quando, ser capaz de suprir o esperar alheio. Mas é difícil lidar com o que esperam de nós, principalmente por ser este esperar um exercício de mistificação de sentimentos e fatos. Uma amiga esperou de mim que aliviasse a solidão que sentia, apesar da presença do marido e dos filhos. E eu me esforcei, não por acreditar ser possível tapar esse buraco, mas por saber que se ela tentasse, poderia alcançar a si mesma e clarear as idéias; descobrir o que a faria mais completa, feliz até. Mas não fiz o que ela esperava... Ao invés de encontrar uma explicação plausível para o vazio que ela sentia, preenchi este vazio com questionamentos; incitei-a a sentir a necessidade de se movimentar e promover mudanças; fiz com que ela provasse o gosto de ser pensante e atuante na busca dos seus desejos e no enfrentar seus próprios medos. E ela se afastou. Cortou nossa amizade pela raiz. Perdi uma boa amiga porque ela esperava algo de mim que eu jamais poderia lhe dar, até mesmo por desacreditar completamente do que ela queria. Também já fui engrenagem deste esperar. Também desejei que lessem minha alma, adivinhassem minhas angústias e as exterminassem. Esperei que fossem justos comigo, como sempre procurei ser nessa vida com qualquer pessoa. Esperei que me dessem as chances que sempre acreditei merecer; pelas quais tenho trabalhado. Porém, este esperar sempre foi o que de mais ilusório alimentei. E chega, sempre, o dia em que paramos de esperar que alguém modifique as nossas vidas e passamos a cultivar um esperar diferente... Um esperar enquanto resultado de movimentos nossos e não daqueles que nos cercam e nos quais depositamos todas as chances de dias melhores. Obviamente, ainda estou à espera de muitas coisas vindas dos outros. O olhar compreensivo, aquele que adverte, as palavras sábias, as conversas descontraídas, o aprendizado... Estou à espera do amor fraterno e do romântico, do poder admirar e ser influenciado... Porém, não espero mais que seja o outro a definir quem sou e o que penso. Não vivo mais do “esperar” desacompanhado de mim. E, talvez, um dia a amiga que perdi para este “esperar” compreenda a diferença que há entre observar e participar da vida. É o que desejo.


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