Saint-Ex
Vou publicar um texto que eu adorei. Ele é de uma simplicidade impar e reflete a realidade de uma pessoa que conseguiu transformar em clássico o que poderia ser uma simples carta, um simples desabafo sobre esse mundo caótico em que estamos vivendo. O Autor, J. Vidal, era um grande amigo de meu pai. Dizem que ele era daquele tipo de pessoa inigualável, alegre, inteligente, amigo, companheiro para todas as horas, amigo de festas e baladas e também de quando se precisava. Essa pessoa incrível escolheu Uberaba, MG, para morar e constituir família, registrava nas páginas de um dos jornais locais sua visão do mundo através de suas crônicas dominicais que a muitos encantava e fazia refletir... Sua visão de tudo que acontecia no mundo e em naquela cidade. Dizem que Deus gosta de pessoas assim ao seu lado e por isso há pouco mais de um ano levou para perto dele o J. Vidal, eternizando assim sua vida, seus dias e suas crônicas. Sua ausência é sempre muito sentida nas festas e nas reuniões. Fiquem com esta Pérola Literária lembrando-se que este texto é apenas uma pequena parte da Obra desse grande Autor. É um texto longo, mas vale a pena ler até o final saboreando até a última palavra.
CARTA AO AUTOR DO PEQUENO PRÍNCIPE
Uberaba, 21 de julho de 2002
Caro Saint-Ex.
Fiquei pensando, Saint-Ex, como deve ter sido difícil pra você, depois do encontro com o principezinho no deserto do Saara. Há coisas que acontecem na vida da gente e a gente muda tanto que fica difícil até para viver. Quando há uma mudança superficial, de cabelo, de lugar, não incomoda ninguém, mas uma mudança mais profunda incomoda a gente e as pessoas que nos rodeiam e, até mesmo as que nos amam. Claro, Saint-Ex, você já era uma alma desassossegada. A data de seu nascimento, 26 de junho de 1900, o colocaria entre dois séculos, um de crença no poder da razão, de esperança na resolução de todos os problemas pelo desenvolvimento da ciência e outro em que as esperanças foram caindo, inclusive a da própria paz, tudo levado por duas enormes e estúpidas guerras. Tanto assim que você morreu por causa de uma dessas guerras. De piloto comercial você passou a piloto de guerra, foi pros EUA quando sua França foi invadida, e em 1942 combatia os alemães no norte da África. Em 31 de julho de 1944 você desapareceu num vôo de reconhecimento, pilotando seu pequeno avião de dois lugares, um P 38. Há dúvida sobre sua morte. Não faz muito tempo foram encontrados os restos do aparelho e junto havia uma pulseira com seu nome e o nome de sua esposa Consuelo. Se você quiser esclarecer, escreva pra mim. Você foi abatido pelos alemães? Pane, como as inúmeras que teve? Ou... Dizem, Saint-Ex, que o Pequeno Príncipe é um dos livros mais lido no mundo, perdendo somente para Bíblia, que erroneamente a chamam assim (livro), e não como Escritura Sagrada. Acredito. Nada mais universal e eterno do que uma criança. E tenho certeza de que você não quer que busquemos a criança que fomos, quer que vivamos a criança que somos. Tenho vontade de rir com o preconceito sobre seu livro, de ser “literatura das Misses”. Duplo preconceito de alguns bobocas: em relação à inteligência das Misses e à qualidade de sua literatura. Meu querido Antoine Marie Roger de Saint-Exupéry, Poeta do Céu, Senhor das Areias, Príncipe do Deserto, estou chamando você de Saint-Ex, para exercer uma intimidade que nunca tive. Saint-Ex é mais adequado para a França do que para o Brasil. Sei que você esteve no Brasil, trabalhou em Natal como piloto do correio aéreo nos anos trinta, viu a majestade dos Baobás e os colocou no livro. Sei que você fez grande amizade com um pescador e sei que o nosso tratamento com você era “Zé Perrí”. Vou, portanto, abrasileirar a intimidade. Nosso planeta, Zé Perrí, continua “todo seco, pontudo e salgado” e os motivos são os mesmos de sempre. É seco, pontudo e salgado porque tem muitos homens sérios, que executam tarefas terríveis, presos unicamente a regulamentos, tão sérios que nunca cheiraram uma flor, tão sérios que nunca gastaram 53 minutos caminhando passo a passo, mão no bolso, na direção de uma fonte; tão sérios que querem possuir tudo, inclusive as estrelas. É seco pontudo e salgado porque achamos ser um preço muito alto suportar duas ou três larvas para conhecer as borboletas, porque os homens são como as galinhas, todos se parecem, porque não conseguimos ver com o coração e o essencial é invisível aos olhos; porque não sabemos cativar e cativar é criar laços, é ter necessidade um do outro, é ser único entre milhares de iguais. O mundo é seco, pontudo e salgado porque sempre queremos andar para frente e assim não se pode mesmo ir longe; porque nunca estamos contentes onde estamos, porque nossas lágrimas nos impedem de ver as estrelas, porque não queremos perder tempo com nossa rosa. O mundo é seco, pontudo e salgado porque como o Rei, só queremos poder; como o Vaidoso, só escutamos elogios; como o Acendedor de Lampiões, só obedecemos; como o Homem de Negócios, só pensamos em acumular riquezas; como o Bêbado, amortecemos nossa consciência e como o Geógrafo, desprezamos o belo, o frágil e o efêmero. Fico pensando, Zé Perrí, você que sempre foi fissurado em avião, desde os doze anos, você que sabe a estrela onde está o Pequeno Príncipe, se não seria possível descolar um avião por aí e vir com o Pequeno Príncipe passar uns tempos em nosso planeta. Pelo menos, enquanto estivessem aqui, tenho certeza, nosso planeta deixaria de ser seco, pontudo e salgado.
Quem lhe escreve e roga por sua visita é J. Vidal, um leitor e admirador seu.
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